3º Cap.: Quarenta Anos Antes.

2009-02-24 06:50

Terceiro Capítulo: Quarenta Anos Antes.

 

DEITADA E FRACA sobre uma cama com colchão de penas de ganço; recoberta por uma única manta preta, meio pesada e de lã, ela sente o molho de suor lhe tocar as costas, com um vento rasteiro entre um erguer repentino de dor do acosto feito por travesseiros.

Branca tinha os olhos grandes e azuis, inchados por um roxo de cansaço; tinha um ar pesado e penativo, como se antes, lívida num campo, caminhasse, para, de repente, uma bala lhe estirar no chão, e pronta a morrer, ela visse apenas as nuvens se abrirem perante o seu corpo quase morto, arrebatando-lhe todo os seus sonhos.

Olhava para o teto e, num sopro fino, sob pressão intensa e extrapolativa dos órgãos, ela sentia um vazio... um sopro, como a água ao se rebater de uma pedra que fora lhe atirada à imensidão; o corpo se tremia e se esfriava. Ela calma, abaixou a cabeça sobre seu corpo e viu o médico lhe tirando o bebê, por uma tesoura, a cortar o cordão umbilical, virar-se à enfermeira que à banheirinha lavava aquele corpinho banhado de sangue, enquanto o médico a limpava, retirava debaixo de seu corpo o lençol molhado de sangue e suor; voltou-se em seguida, já com o filho enrolado numa manta preta... dando-o para o colo da mãe.

Ela deita-o sobre seu olhar; nenhum choro de incômodo é ouvido, nem mesmo pelas palmadinhas que o Doutor lhe dera para chegar se havia vida; a mãe respira agora aliviada – foram sete horas de trabalho de parto –, recobre o pescocinho do menininho para acalantá-lo, a dizer: – Chamar-se-á: Átom, o êxtase da criação!

O bebê abre os olhos, ao ouvir a voz aveludadamente baixa de sua mãe lhe impôr seu nome; e um grito de horror arrenca-se por toda a casa, todos os cantos, espelhos e demais vidros se trincam pelo susto; a enfermeira, que cortava pano para frauda com uma grande tesoura, tirou o mindinho fora; o Doutor se torceu para pegar o pequenino no colo depois do tranco pelo susto de Branca.

O pai desesperado, que do lado de fora, chutou a porta numa única força, e se pôs no mesmo segundo ao lado da mulher, onde virou o rosto e viu seu filho, de olhos abertos e no colo do médico. Mário sentou-se na cama, ao lado da mulher e com suas duas mãos sobre as delas, começou a chorar, num gemer ressoante de dor enquanto repetia... “ --- Não... Não é possível... Não... não é possível...”

Um olhar calmo, sereno e até frio para o momento cobria todo o rosto do menino; que tinha os olhos de cores ao contrário: onde, os globos oculares são pretos, as córneas, pupilas e as íris: brancas. Voltaram-se novamente ao branco, num pavor de reflexo em olhar... um fenômeno.

Que olhava calmamente para o pai, como se o interrogasse imaculadamente do motivo de tanto susto, nem pisca, destrói o silêncio com apenas um pingar de lágrima, mas sem choro, em apenas um olho; enquanto Mário – o pai – tentava se controlar, perdia-se nos olhos e na lágrima única do filho, e sentia sua respiração ir parando... parando de afligir, dessoltar-se no peito até convencer-se.

Ele estende as mãos em silêncio, enquanto a mulher em gemidos tenta controlar seu horror, Mário olha firme para o médico, que em silêncio e também meio assustado percebe o pedido; ele estica o corpinho nu sobre os braços do pai e lhe deposita com uma assistência de fragilidade.

  • Átom, esse será seu nome! – Diz, voltando-se ao olhar da mulher: – Veja meu amor, ele é normal, apenas tem os olhos negros... é um bebê comum, é nosso filho!

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