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113Prosas Que Versam... e as vezes rimam
Introdução do livro:
Mais uma carta...
Olha... eu tenho motivos para deixar de escrever. Acho que sonhar já não é mais nada perto de ver como a vida é tão linda, a vida é o que está me tomando o fascínio nestes últimos tempos.
Certo dia, sentei na janela do apartamento de um amigo meu no quinto andar... e dali observei um senhor numa praça sentado. Mas não foi o primeiro olhar que dei nele. Passei a manhã toda na casa deste amigo, e sempre que ia no quarto, pela janela via aquele senhorzinho.
Depois do almoço decidi deixar meu colega de baralho de lado para tentar descobrir o que o senhor estava fazendo ali, o dia inteiro.
Fiquei uns cinco minutos imóvel, e mesmo estando num prédio, e do outro lado da rua, sentado na janela, do quinto andar... mesmo estando ali, nada existia pra mim além daquele tiozinho.
Que era de uma depressão tremenda. Parecia que... não, não parecia nada. Eu sabia o que era; ele passava a mão pelo dedo anelar esquerdo, mas nenhum anel ou aliança havia... e o semblante caído me dizia o que eu não queria ouvir.
Sabe... durante toda a nossa vida, passamos calculando nossa felicidade, ajustando nossas condições aos nossos sonhos, e... querendo sempre mais desta vida, ou algo que vá além dela... pra variar: e dizer que nada foi só um sonho.
Aquele senhorzinho tava lá para os noventa anos, as pernas tremiam do frio do entardecer... mas o rosto caído não me deixava dizer que era só depressão. Ele sabia que ia morrer... mas viveu sem amar, viveu uma vida toda sem ser amado, e ali estava, pronto para morrer.
Concluí isso porque percebi que ele não se olhava, não queria ver como estava, pois tinha a certeza de que não duraria muito tempo... e as chances de sua vida se encaminhar para a vida dos sonhos eram muito menores do que no mínimo cinco anos atrás...
Tentei não ver mais aquela cena, descer da tal janela... algumas pessoas me olhavam lá debaixo pensando que eu ia me jogar, mas eu nem as via... só fui perceber depois de sentir a alma do tiozinho sobre mim... um segundo congelou em volta de mim... sabe... o senhor derrubou apenas uma lágrima no chão... a do outro olho ficou presa no soluço... ele levantou-se do banco e foi caminhando até a calçada do lado do prédio... quando meu amigo me puxou da janela para dentro do apartamento...
Até hoje pensam que eu sou um suicida... mas eu também acho que sou... acho que se eu vivesse noventa e poucos anos para ter um dia como o daquele senhor... talvez eu escolheria pela hora de acabar com estas lágrimas.
Agora vamos ao que eu faço, porque o que o que eu farei me espera!



113 Prosas Que Versam
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